segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A partida


Uma noite. A notícia. O desespero. Em fração de segundos a boca seca, o coração dispara, as pupilas se dilatam, a desorientação e o conflito de ideias e pensamentos são inevitáveis. Nada mais parece fazer sentido e momentaneamente  ficamos verdadeiros mortos vivos, em pé, mas sem alma.

Ela sempre escolhe a hora em que estamos desatentos. Mesmo aqueles que, angustiados, aguardam pelo pior  momento são pegos de surpresa. Passam pela sensação do gelo no corpo.
No momento em que se recebe o golpe mais forte e a fraqueza toma conta é preciso arranjar força para dar seguimento às etapas seguintes. Reconhecimento.  Silêncio. Funerária. Silêncio. Cemitério. Muito choro e mais silêncio.

A memória automaticamente se encarrega de fazer sua retrospectiva. Pensamentos  acompanham lágrimas, que acompanham  sensações e lembranças, muitas lembranças. Desde as mais antigas até as mais recentes. De dias ou horas que antecederam os segundos em que se ouvia a notícia. O vazio torna-se presente.

Os dias passam a ficar mais lentos. A sensação da presença é frequente, diária, diria. O quarto teima em ficar do mesmo jeito, a espera de que a qualquer momento seu dono volte, como quem faz uma viagem para o melhor lugar do mundo e na volta sorri ao perceber que dentre os melhores lugares que o mundo pode ter, a acomodação do seu quarto é imbatível. Mas ninguém vai voltar.

Além da lentidão dos dias, o cheiro na toalha, o perfume nas roupas, a bagunça organizada dos pertences e a voz que se ouve acalentam a alma e machucam o coração. Ou o contrário. Ou nenhum dos dois.

A vida é curiosa por ter seus mistérios desvendáveis e aqueles que nunca serão desvendados. A partida é um daqueles que fazem parte dos que nunca serão. Não por que não haja explicação para essa etapa da vida, mas talvez pelo que esteja ao seu redor. A certeza do fim é única coisa que se pode ter, mas ninguém é obrigado a aceitar ou entender a maneira de como isso ocorre.

Mesmo quem não é atingido diretamente pelo fato se mobiliza e quase que se obriga a fazer uma reflexão. Talvez esse seja um dos mistérios desvendáveis da vida. Apesar do mesmo acontecimento reverberar de maneira distinta para cada um, é possível se colocar no lugar do outro. Mas há quem simplesmente não se abale. É possível que num prédio com dois apartamentos por andar, um deles esteja em completa festa. Seja porque aquele parente que mora fora tenha chegado de viagem, ou porque um membro da família foi promovido no trabalho ou até mesmo por ter o bilhete premiado da loteria. Enquanto na casa do vizinho as pessoas podem estar desoladas, sem chão, chorando por uma pessoa que nunca mais voltará. E felizmente ou infelizmente,  a vida segue.


Durante os momentos de reflexão, vários são os questionamentos. Todos têm em mente a lógica natural da vida . Os filhos, já velhos, se despedem dos seus pais, mais velhos ainda. Mas infelizmente nem sempre a vida segue o fluxo natural das coisas. O destino as vezes tem o poder de brincar com as coisas e as pessoas. Entre concepções  sobre a verdadeira importância do que se tem e de quem se tem, da ordem ideal de valores e a melhor maneira de se aproveitar a vida, fica a questão mais ingrata, dolorosa e cruel que se pode ter sobre uma das formar de lidar com o fato: como pode uma mãe ver o seu filho partir?

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