Uma noite. A notícia. O
desespero. Em fração de segundos a boca seca, o coração dispara, as pupilas se
dilatam, a desorientação e o conflito de ideias e pensamentos são inevitáveis.
Nada mais parece fazer sentido e momentaneamente ficamos verdadeiros mortos vivos, em pé, mas
sem alma.
Ela sempre escolhe a hora em que
estamos desatentos. Mesmo aqueles que, angustiados, aguardam pelo pior momento são pegos de surpresa. Passam pela
sensação do gelo no corpo.
No momento em que se recebe o
golpe mais forte e a fraqueza toma conta é preciso arranjar força para dar
seguimento às etapas seguintes. Reconhecimento. Silêncio. Funerária. Silêncio. Cemitério.
Muito choro e mais silêncio.
A memória automaticamente se
encarrega de fazer sua retrospectiva. Pensamentos acompanham lágrimas, que acompanham sensações e lembranças, muitas lembranças. Desde
as mais antigas até as mais recentes. De dias ou horas que antecederam os
segundos em que se ouvia a notícia. O vazio torna-se presente.
Os dias passam a ficar mais
lentos. A sensação da presença é frequente, diária, diria. O quarto teima em
ficar do mesmo jeito, a espera de que a qualquer momento seu dono volte, como
quem faz uma viagem para o melhor lugar do mundo e na volta sorri ao perceber
que dentre os melhores lugares que o mundo pode ter, a acomodação do seu quarto
é imbatível. Mas ninguém vai voltar.
Além da lentidão dos dias, o
cheiro na toalha, o perfume nas roupas, a bagunça organizada dos pertences e a
voz que se ouve acalentam a alma e machucam o coração. Ou o contrário. Ou
nenhum dos dois.
A vida é curiosa por ter seus
mistérios desvendáveis e aqueles que nunca serão desvendados. A partida é um
daqueles que fazem parte dos que nunca serão. Não por que não haja explicação
para essa etapa da vida, mas talvez pelo que esteja ao seu redor. A certeza do
fim é única coisa que se pode ter, mas ninguém é obrigado a aceitar ou entender
a maneira de como isso ocorre.
Mesmo quem não é atingido
diretamente pelo fato se mobiliza e quase que se obriga a fazer uma reflexão.
Talvez esse seja um dos mistérios desvendáveis da vida. Apesar do mesmo
acontecimento reverberar de maneira distinta para cada um, é possível se
colocar no lugar do outro. Mas há quem simplesmente não se abale. É possível
que num prédio com dois apartamentos por andar, um deles esteja em completa
festa. Seja porque aquele parente que mora fora tenha chegado de viagem, ou
porque um membro da família foi promovido no trabalho ou até mesmo por ter o
bilhete premiado da loteria. Enquanto na casa do vizinho as pessoas podem estar
desoladas, sem chão, chorando por uma pessoa que nunca mais voltará. E felizmente
ou infelizmente, a vida segue.
Durante os momentos de reflexão,
vários são os questionamentos. Todos têm em mente a lógica natural da vida . Os
filhos, já velhos, se despedem dos seus pais, mais velhos ainda. Mas
infelizmente nem sempre a vida segue o fluxo natural das coisas. O destino as
vezes tem o poder de brincar com as coisas e as pessoas. Entre concepções sobre a verdadeira importância do que se tem e
de quem se tem, da ordem ideal de valores e a melhor maneira de se aproveitar a
vida, fica a questão mais ingrata, dolorosa e cruel que se pode ter sobre uma
das formar de lidar com o fato: como pode uma mãe ver o seu filho partir?